Episode 168

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23rd Jan 2026

A EXPANSÃO DO COMANDO VERMELHO NAS REGIÕES NORTE E NORDESTE DO BRASIL

A consolidação do poderio econômico do Comando Vermelho se apoia em mercados ilícitos bilionários, tráfico de drogas, armas, contrabando, exploração de pessoas e lavagem de dinheiro, aproveitando as fragilidades institucionais, a vulnerabilidade de fronteiras e a ausência do Estado em áreas estratégicas. Para nos guiar nessa análise detalhada que integra o livro "Polícia Penal em Foco", converso Stanley Gusmão de Paiva, autor do artigo “A Expansão da Organização Criminosa Comando Vermelho nas regiões Norte e Nordeste do Brasil”, explorando suas reflexões e apontamentos sobre esse tema, atual e preocupante!

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Transcript
ANFITRIÃO:

Honoráveis Ouvintes! Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do Hextramuros! Sou Washington Clark dos Santos, seu anfitrião!

Neste conteúdo, vamos focar em uma das questões mais inquietantes da segurança pública brasileira: a expansão da organização criminosa Comando Vermelho para as regiões Norte e Nordeste do Brasil.

Esse fenômeno não se trata apenas de um deslocamento geográfico, mas de uma estratégia criminosa complexa que envolve alianças, rupturas e confrontos com facções locais, como a Família do Norte - FDN - no Amazonas, os Guardiões do Estado - GDE -, no Ceará, o Sindicato do Crime - SDC - no Rio Grande do Norte, a Nova Okaida, na Paraíba, além de grupos atuantes na Bahia.

A consolidação do poderio econômico do Comando Vermelho se apoia em mercados ilícitos bilionários, tráfico de drogas, armas, contrabando, exploração de pessoas e lavagem de dinheiro, aproveitando as fragilidades institucionais, a vulnerabilidade de fronteiras e a ausência do Estado em áreas estratégicas.

Para nos guiar nessa análise detalhada que integra o livro Polícia Penal em Foco, tenho a satisfação de receber o policial penal Stanley Gusmão de Paiva, autor do artigo “A expansão da organização criminosa Comando Vermelho nas regiões Norte e Nordeste do Brasil”, compartilhando conosco suas reflexões e apontamentos sobre esse tema, atual e preocupante!

Na satisfação do reencontro, Stanley, dou-lhe as boas-vindas, agradecendo a sua deferência e generosidade em aceitar o convite e contribuir, mais uma vez, com este canal!

Antes de entrarmos nas dinâmicas mais recentes, peço que você apresente à nossa audiência o objetivo central do seu artigo e o que motivou sua pesquisa sobre a expansão do Comando Vermelho para o Norte e Nordeste.

CONVIDADO:

O prazer é meu mais uma vez de estar aqui no Hextramuros Podcast! Sou policial penal da Paraíba, já há mais de doze anos e acompanho de perto essa movimentação do Comando Vermelho e de outras facções. Sempre com conversa com outros integrantes da segurança pública de outros estados que contribuíram para esse artigo. E vemos que o que vivenciamos, o que discutimos há um, dois anos atrás e escrevemos sobre isso, está acontecendo! É um movimento bem atual do Comando Vermelho e de outras facções, mas em especial o Comando Vermelho, que praticamente está dominando estado por estado na região Norte e Nordeste.

ANFITRIÃO:

O Comando Vermelho consolidou-se como a mais antiga facção do Brasil, mas ao longo da última década passou a direcionar fortemente sua estratégia de crescimento para fora do Sudeste. Quais fatores econômicos, sociais e geográficos explicam essa movimentação rumo às regiões Norte e Nordeste?

CONVIDADO:

Isso! O Comando Vermelho é a facção mais antiga do país! Mil novecentos e setenta! Foi criado no Presidio Ilha Grande, no Rio de Janeiro. E a gente vê vários pontos durante a história, nessa grande expansão ora ou outra adormecida, mas, vemos de mil novecentos e setenta, quando foi criado, até a década de noventa, noventa e três, noventa e quatro, quando se criou o PCC, praticamente, era a única facção criminosa do Brasil que batia de frente com o Estado!

E, quando chegou em dois mil e seis, praticamente mais de uma década após, foi criado o Sistema Penitenciário Federal. E a gente começa a linkar diversas situações que, quando o presídio federal foi criado, o primeiro preso foi Fernandinho Beiramar. Mas, nessa criação, foram mandados para o presídio federal diversos integrantes de facções, as principais lideranças dos estados. Chegando lá, a grande facção era o Comando Vermelho. A gente sabe que o pouco contato que eles têm, mas eles conversam entre si! Chega um momento que eles vão ter uma interlocução. Então, esses presos que foram mandados para lá tiveram o primeiro contato, com o CV. E chegou uma hora que esses presos locais tiveram que retornar aos estados. E quando retornaram, levaram a bagagem do Comando Vermelho! Então, quando esse pessoal volta para os estados, eles levam os contatos de fornecedores de arma, contato de fornecedor de drogas, até a ida deles para o Rio de Janeiro, para fechar negócios! Isso são décadas de contatos! E a gente vê que só, praticamente em dois mil e dezenove, presos do PCC foram mandados para o federal. Então, a gente vê praticamente mais de dez anos desse monopólio do CV no Sistema Penitenciário Federal, com faccionados de outros estados. E a gente vê, em dois mil e dezesseis, a grande briga do fornecimento de drogas e da rota, com a morte de Jorge Rafaat, na fronteira do Paraguai. Então, a aliança foi quebrada entre eles durante esse período e o CV se viu na obrigação de expandir. Então, sobrou a rota Solimões, de Manaus, no estado do Amazonas.

Em dois mil e dezessete, houve aquela grande chacina em Manaus e, depois, no Rio Grande do Norte, que justamente é a questão da briga da rota: do PCC querer impor ordens diretamente às facções locais, que não admitiram essas ordens, e o CV, então, ficou ali nos bastidores e teve o grande confronto e praticamente o rompimento das grandes facções locais dos estados ao PCC. Já para o Comando Vermelho, a questão econômica, a rota do Rio Solimões deságua na grande fronteira marítima do Norte e Nordeste, com pouca fiscalização e é uma rota internacional, tanto para a Europa, como para os Estados Unidos, para a África, também passando para a Ásia. Então, o CV começou a investir nas facções locais, sem impor uma ordem direta, colocando ali representantes para fazer a interligação entre Comando Vermelho e as facções locais, sem um grande confronto nessas situações.

ANFITRIÃO:

Em seu artigo, você mostra como o Comando Vermelho utiliza facções locais como trampolim para dividir e conquistar territórios. Podes detalhar como isso ocorreu em casos específicos como a relação inicial do Comando Vermelho com a Família do Norte, no Amazonas, e com o Sindicato do Crime no Rio Grande do Norte?

CONVIDADO:

Nessas idas e vindas do Sistema Penitenciário Federal, esses presos, tanto do Comando Vermelho como do PCC, eram lançados no convívio das facções locais e, por conta de brigas de anos, o Comando Vermelho sempre teve uma grande abertura nessas facções maiores dos estados. Então, começava ali aquele “efeito formiguinha” de verificar quem são os presos locais que têm os melhores pontos de tráfico de drogas, o preso que tem uma ambição de crescer, não ficar só nos estados. Ele começa a cooptar integrantes para serem batizados! Assim, o Comando Vermelho cresce dentro das facções locais e chega um momento que ele explode e cria-se a guerra que nós vemos aí! Praticamente, em todos os estados do Norte e Nordeste tem essas células. Algumas maiores, outras menores, mas, que a gente vê que o tráfico de drogas, armas, é o grande fator econômico! A questão do turismo é muito grande no Nordeste, então, é uma fatia muito grande na economia das facções essa situação e, não deixar, também, o grande rival - o PCC - crescer e tomar esses estados! Então, é uma briga eterna entre eles, mas, que nós vemos, tanto o Comando Vermelho como o PCC evoluíram. Muitas vezes eles não procuram confronto. Eles querem estar vendendo os ilícitos nas unidades prisionais! E eles querem ganhar dinheiro! O Comando Vermelho é bastante sanguinário nessa situação! Já o PCC trabalha de forma mais orquestrada. Tem liderança central. Tem uma hierarquia entre eles, e o Comando Vermelho já é mais local, com representante do Estado.

ANFITRIÃO:

O Ceará tornou-se palco de grandes disputas entre o Comando Vermelho e os Guardiões do Estado, com reflexos diretos em atentados, ataques coordenados e massacres prisionais. Como você avalia esse cenário e o papel do Comando Vermelho nesse tabuleiro de poder?

CONVIDADO:

E é realmente do jeito que você falou, a questão de um tabuleiro de xadrez! E ele vê que se o Comando Vermelho não tomar conta, o PCC irá fazer de uma forma ou de outra. Assim, ele dá essa jogada do tabuleiro justamente para não deixar o grande rival, o PCC, crescer. São jogadas que eles criam ali os estados principais como rota de tráfico internacional e questão de domínio do estado. Se você for olhar no mapa - Norte e Nordeste - e vai descendo; Bahia, Minas, Espírito Santo, Rio de Janeiro, então, praticamente a fronteira marítima do Brasil é dominada pelo CV!

ANFITRIÃO:

A Bahia, por sua vez, aparece em seu estudo como um estado em que a violência explodiu nos últimos anos com a atuação de grupos locais como o Bonde dos Malucos e o Comando da Paz. Qual a importância estratégica da Bahia para os planos de expansão do Comando Vermelho?

CONVIDADO:

A Bahia é o estado estratégico que faz a ligação do Sudeste com o Nordeste. É a principal força econômica do Nordeste, seguido do Ceará e Pernambuco. Assim, a Bahia tem um grande território, uma faixa litorânea gigante e que explodiu agora! Mas, isso já estava previsto acontecer! Se você for olhar lá nas entrelinhas, do Bonde dos Malucos, do Comando da Paz, eles estavam lá, dentro da facção, cooptando integrantes, verificando pontos estratégicos, tanto da rota do estado - interno - da Bahia, como outras rotas. E a sociedade, infelizmente, sofre com esse tipo de situação!

ANFITRIÃO:

Você enfatiza no texto a relevância das rotas do tráfico, especialmente a do Rio Solimões e a chamada Rota Caipira. Como o domínio dessas rotas se conecta diretamente à presença cada vez mais forte do Comando Vermelho no Norte e Nordeste?

CONVIDADO:

Sim! Como foi falado, essa briga começou lá atrás, em dois mil e dezesseis, com a morte do Jorge Rafaat. O Comando Vermelho junto com o PCC teve indicações de autoria desse crime, mas praticamente ali o PCC tem um domínio maior! O CV se viu num momento que ia ficar encurralado, então, se fortaleceu e conseguiu essa rota do Solimões de uma forma de sobreviver! Temos esse fornecimento da Rota Caipira, que não é tão combatida! Existem várias rotas no Rio Solimões que o CV tomou conta das unidades prisionais, e fez, dentro dos estados, as suas filiais do tráfico de drogas.

ANFITRIÃO:

Considerando o cenário atual, quais seriam os caminhos mais eficazes para conter a expansão do Comando Vermelho nessas regiões? E como você enxerga o papel da integração entre forças estaduais e federais, especialmente no campo da inteligência e do sistema penitenciário?

CONVIDADO:

O cenário atual, a gente vê que tanto o Comando Vermelho, como o PCC, tem expansão praticamente no Brasil inteiro e em outros países! Mas, falando do Comando Vermelho, essa expansão dele do Norte e Nordeste, em frente ao PCC, é bem complexa! A segurança pública, apesar dos esforços tanto da Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Federal, Rodoviária, Polícia Penal, mas sempre ficamos a um passo atrás dessas facções criminosas! A questão financeira que essas organizações têm são gigantes! Não têm burocracia para se adquirir nenhum tipo de material para fazer confronto à segurança pública! Eu vejo que o sistema penitenciário é o ponto focal! Se você não conseguir eliminar a comunicação, isolar os principais líderes das facções, não consegue fazer confronto fora das muralhas! Então, o que acontece dentro do sistema penitenciário reflete fora das muralhas! Se não tivermos um sistema penitenciário forte, que isole tanto a comunicação como isole os líderes dessas facções e se combatendo a questão financeira, que é uma grande lavagem de dinheiro, de várias formas que se tem conhecimento, tanto de familiares como de “laranjas”! Se não tivermos um sistema penitenciário forte, de forma sincronizada, nós não conseguimos vencer essa guerra! Acho que são palavras-chave a integração, inteligência e sistema penitenciário!

ANFITRIÃO:

Meu caro, nos encaminhando para o final de nossa conversa e reprisando os meus agradecimentos pela sua contribuição, o parabenizo pela pesquisa, a qual nos mostra como o crime organizado se reinventa, aproveitando lacunas estatais e transformando fragilidades em oportunidades! Deixo este espaço para suas considerações finais. Fraterno abraço!

CONVIDADO:

Infelizmente, o crime organizado tem esses tentáculos! Ele consegue se reinventar. Mas, como segurança pública, nós temos que fazer o nosso melhor! E o nosso melhor é manter a sociedade segura e deixar esses criminosos atrás dos muros, pagando pelos seus erros e trabalhando em prol da sociedade! Nós somos o Estado, e o Estado é o que mantém a ordem no sistema de segurança brasileiro. Um grande abraço! Fico à disposição e até mais!

ANFITRIÃO:

Honoráveis Ouvintes! Este foi mais um episódio do Hextramuros! Sou Washington Clark dos Santos, seu anfitrião! No conteúdo de hoje, na sequência da série que aborda temas contido no livro POLÍCIA PENAL EM FOCO, conversei com STANLEY GUSMÃO, autor do artigo: A EXPANSÃO DA ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA COMANDO VERMELHO NAS REGIÕES NORTE E NORDESTE DO BRASIL. Acesse nosso website e saiba mais sobre este conteúdo! Inscreva-se e compartilhe nosso propósito! Será um prazer ter a sua colaboração! Pela sua audiência, muito obrigado e até a próxima!

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About the Podcast

Hextramuros Podcast
Vozes conectando propósitos, valores e soluções.
Ambiente para narrativas, diálogos e entrevistas com operadores, pensadores e gestores de instituições de segurança pública, no intuito de estabelecer e/ou ampliar a conexão com os fornecedores de soluções, produtos e serviços direcionados à área.
Trata-se, também, de espaço em que este subscritor, lastreado na vivência profissional e experiência amealhada nas jornadas no serviço público, busca conduzir (re)encontros, promover ideias e construir cenários para a aproximação entre a academia, a indústria e as forças de segurança.

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Washington Clark Santos

Produtor e Anfitrião.
Foi servidor público do estado de Minas Gerais entre 1984 e 1988, atuando como Soldado da Polícia Militar e Detetive da Polícia Civil.
Como Agente de Polícia Federal, foi lotado no Mato Grosso e em Minas Gerais, entre 1988 e 2005, ano em que tomou posse como Delegado de Polícia Federal, cargo no qual foi lotado em Mato Grosso - DELINST -, Distrito Federal - SEEC/ANP -, e MG.
Cedido ao Ministério da Justiça, foi Diretor da Penitenciária Federal de Campo Grande/MS, de 2009 a 2011, Coordenador Geral de Inteligência Penitenciária, do Sistema Penitenciário Federal, de 2011 a 2013.
Atuou como Coordenador Geral de Tecnologia da Informação da PF, entre 2013 e 2015, ano em que retornou para a Superintendência Regional em Minas Gerais, se aposentando em fevereiro de 2016. No mesmo ano, iniciou jornada na Subsecretaria de Segurança Prisional, na SEAP/MG, onde permaneceu até janeiro de 2019, ano em que assumiu a Diretoria de Inteligência Penitenciária do DEPEN/MJSP. De novembro de 2020 a setembro de 2022, cumpriu missão na Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, no Ministério da Economia e, posteriormente, no Ministério do Trabalho e Previdência.
A partir de janeiro de 2023, atua na iniciativa privada, como consultor e assessor empresarial, nos segmentos de Inteligência, Segurança Pública e Tecnologia.