Episode 199

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28th Aug 2026

A Teoria Econômica do Crime na Predição Criminal.

Este conteúdo apresenta uma conversa com o Coronel Veterano da PMESP, MÁRCIO SANTIAGO HIGASHI, apresentando tema de sua pesquisa que propõe e demonstra a aproximação três áreas que raramente dialogam de forma integrada: economia, estatística e atividade policial. Saiba o que o motivou a desenvolver esse estudo e quais lacunas observadas nos modelos tradicionais de análise criminal despertaram a necessidade de incorporar a Teoria Econômica do Crime ao planejamento operacional da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

Saiba mais!

Transcript
ANFITRIÃO:

Honoráveis Ouvintes! Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do Hextramuros! Sou Washington Clark dos Santos, seu anfitrião! Nas últimas décadas, as organizações policiais em todo o mundo passaram a conviver com um desafio cada vez mais complexo: como transformar grandes volumes de dados em decisões operacionais capazes de prevenir crimes, otimizar recursos e aumentar a eficiência da ação estatal. A evolução das ferramentas de análise estatística, da geointeligência e da ciência de dados abriu novas possibilidades para o planejamento policial. Entretanto, permanece uma questão fundamental: é possível prever a ocorrência de crimes apenas observando padrões históricos ou é necessário compreender também os fatores que influenciam a tomada de decisão dos próprios criminosos? É justamente nesse ponto que a Teoria Econômica do Crime, desenvolvida a partir dos estudos de Gary Becker e outros pesquisadores, oferece uma perspectiva inovadora ao considerar que a prática criminosa pode ser influenciada por cálculos de risco, oportunidade, custo e benefício. Para conversar conosco sobre esse tema, recebo neste episódio o Coronel Márcio Santiago Higashi, autor da pesquisa de pós-doutorado intitulada "Empregando a Teoria Econômica do Crime no Método de Predição Criminal Estatística para o Planejamento Operacional da Polícia Militar de São Paulo", trabalho que propõe integrar fundamentos econômicos, métodos estatísticos e planejamento policial orientado por evidências.

Coronel Higashi, seja muito bem-vindo ao Hextramuros! É uma satisfação recebê-lo para discutir uma temática que conecta ciência, inteligência e gestão operacional da segurança pública. Sou grato pela sua contribuição e é uma honra tê-lo conosco!

Sua pesquisa propõe aproximar três áreas que raramente dialogam de forma integrada: economia, estatística e atividade policial. O que o motivou a desenvolver esse estudo e quais lacunas observadas nos modelos tradicionais de análise criminal despertaram a necessidade de incorporar a Teoria Econômica do Crime ao planejamento operacional da Polícia Militar?

CONVIDADO:

Eu trabalhei durante trinta e dois anos na Polícia Militar do Estado de São Paulo, sendo onze anos no Primeiro Batalhão de Policiamento de Choque Tobias de Aguiar, onde funcionam as Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, a ROTA e, também, no comando de unidades operacionais da Polícia Militar, tanto na cidade de São Paulo quanto na Grande São Paulo. E esse trabalho incluiu o planejamento operacional. A Polícia Militar tem como missão constitucional o policiamento ostensivo preventivo fardado e o planejamento operacional consiste colocar policiais e viaturas nos locais e nos horários adequados, para prevenir a ocorrência de crimes. Por isso que é importante a utilização da teoria econômica do crime. Para se fazer o planejamento operacional adequado.

ANFITRIÃO:

A expressão teoria econômica do crime ainda é pouco conhecida fora dos círculos acadêmicos especializados. Podes explicar os principais fundamentos dessa teoria e de que maneira ela interpreta o comportamento criminoso a partir da lógica de custos, benefícios, riscos e oportunidades?

CONVIDADO:

A teoria econômica do crime foi criada pelo economista americano Gary Becker nos anos de mil novecentos e setenta nos Estados Unidos e tem como princípio básico a relação do custo-benefício. Getty Baker, considerava o crime como uma atividade econômica em que os criminosos buscam ganhar dinheiro, buscam o lucro! Essencialmente, é a relação do custo-benefício: se em determinado local existe a presença da polícia e a possibilidade do criminoso ser preso, ele não vai praticar o crime lá! Ele vai procurar outro local! A mesma coisa, quando o cidadão cria dificuldades para a ação do criminoso. Por exemplo, colocando alarme em um carro, colocando uma câmera numa casa. Então, o criminoso vai procurar agir onde há mais facilidade para ele! Essa Teoria Econômica do Crime se baseia nisso. Então, quando nós temos um policiamento preventivo, quando nós colocamos o policial, a viatura no local certo, o criminoso, na grande maioria das vezes, evita cometer o crime naquele local.

ANFITRIÃO:

Diversos sistemas de predição criminal utilizam séries históricas de ocorrências, análise espacial e padrões temporais para estimar riscos futuros. Quais são as principais limitações desses modelos quando analisam apenas o histórico dos delitos sem considerar os fatores que influenciam a tomada de decisão dos infratores?

CONVIDADO:

O planejamento operacional, atualmente, no estado de São Paulo, é feito através de um programa de policiamento inteligente, em que estão monitorados os índices criminais, a ocorrência dos crimes, onde acontecem, em que horário acontecem, o perfil dos criminosos. E, através desse levantamento, é feito esse planejamento de onde vão ser colocadas as viaturas, de onde vão ser colocados os policiais. A polícia não tem uma bola de cristal para saber exatamente onde vai acontecer o crime! E esse é um problema que existe no mundo todo! No entanto, vamos fazer uma comparação com a previsão do tempo: como é que o meteorologista ele sabe que daqui a alguns dias vai chover, vai ficar frio em determinado local? Através de alguns indícios, como por exemplo, a umidade do ar, a formação de nuvens, a pressão atmosférica. Então, através desses indícios, ele faz uma previsão de que pode chover, pode ficar frio naquele local, dali alguns dias. E a gente sabe que muitas vezes essa previsão não dá certo! Só que, com o avanço da tecnologia, os índices de acerto estão aumentando cada vez mais! A mesma coisa é a predição criminal, que ainda não é usada muito no Brasil! Quando nós fazemos o planejamento operacional, nós atuamos em cima de crimes que já aconteceram. Nós mandamos as viaturas, os policiais para os locais onde estão acontecendo os crimes. Então, nós não estamos prevenindo! A predição criminal analisa uma série de fatores sociais, ambientais, econômicos, para fazer uma previsão de que, em determinado local, em determinado horário, podem acontecer determinados crimes. E através disso, no planejamento, se colocam policiais e viaturas naquele local para evitar que o crime aconteça. Então, a inovação seria essa: realmente, fazer a prevenção! Não precisaríamos esperar que o crime acontecesse para mandarmos viaturas para evitar outros crimes. Através dessa predição, e hoje em dia existem várias ferramentas, inclusive de Inteligência Artificial, que podem ser utilizadas para se fazer esse planejamento operacional através da predição criminal.

ANFITRIÃO:

Uma das contribuições mais interessantes da sua pesquisa parece ser a incorporação de elementos explicativos relacionados ao ambiente econômico e social. Quais variáveis ou indicadores consideras mais relevantes para compreender a dinâmica criminal e como esses fatores podem contribuir para aumentar a precisão dos modelos de previsão?

CONVIDADO:

Nós utilizamos algumas ferramentas, como por exemplo, a matriz SWOT, de pontos fracos e pontos fortes ao analisarmos determinada área em que será feito o policiamento. Nós analisamos as áreas comerciais, aonde há maior concentração de pessoas, aonde há maior fluxo de veículos, verificamos aonde ficam as delegacias, os quartéis, aonde existem as câmeras de vigilância - tanto públicas, quanto particulares. Então, vários fatores que facilitam a ocorrência de crimes e fatores que inibem a ocorrência desses crimes. E uma outra coisa que nós utilizamos, também, é o chamado Teorema de Pareto, que diz o seguinte: oitenta por cento dos problemas, das situações, acontecem em vinte por cento dos locais! As áreas de patrulhamento são muito grandes e o efetivo policial é restrito, às vezes é pequeno, não dá para gente pegar e colocar um policial em cada esquina, um policial em cada local! Através desse levantamento dos locais, dos pontos mais suscetíveis à ocorrência de crimes, nós colocamos o policiamento nesses locais! E quando nós fazemos uma análise georreferenciada, que é colocar o crime no horário e local no mapa, nós fazemos um hotspot - como é chamado - e fazemos um mapa de calor. O mapa daquela área de patrulhamento fica iluminado naquele local que estão acontecendo os crimes. E aí a gente pode notar nitidamente que a grande maioria dos crimes acontece em apenas uma porcentagem da área de patrulhamento. São determinadas ruas, determinados locais, onde se concentram esses crimes! Através disso, através dessa questão da atividade econômica, questão do tipo de crime, que nós podemos colocar o policiamento lá antes que o crime aconteça. Nós fazemos essa análise econômica, essa análise social, essa análise de como é aquele ambiente, como é aquela região, e aí nós colocamos o policiamento nesses locais.

ANFITRIÃO:

Quando falamos em modelos estatísticos, muitos profissionais imaginam ferramentas complexas e distantes da realidade operacional. Na prática, Como os resultados produzidos por esse método podem auxiliar comandantes, gestores e equipes de planejamento na distribuição do efetivo, na definição de patrulhamento e na execução de operações preventivas?

CONVIDADO:

Nós temos que entender que a análise não deve ser apenas quantitativa, trabalhar apenas com números, mas qualitativa! Entender porque aqueles números estão acontecendo. O que está facilitando a ocorrência de crimes de determinado local e o que pode dificultar a ocorrência desses crimes! Então, a análise tem que ser qualitativa! E hoje em dia nós temos uma grande gama de ferramentas e, principalmente, a Inteligência Artificial que pode fazer essa análise pelo policial que está fazendo o planejamento com mais critérios, com mais abrangência e apontar aonde pode acontecer determinado crime, em que horário, para que seja feito o planejamento de uma forma mais eficiente, empregando os recursos que estão disponíveis.

ANFITRIÃO:

Um dos debates mais frequentes sobre policiamento preditivo envolve o risco de reproduzir vieses existentes nos bancos de dados ou direcionar recursos de forma inadequada. Como sua pesquisa enfrenta essas preocupações metodológicas e quais mecanismos podem ser adotados para evitar distorções na interpretação dos resultados?

CONVIDADO:

Existe, realmente, um risco de se utilizar paradigmas, de se ter determinados preconceitos quando se faz este tipo de planejamento! Então, o preconceito comum que pode existir é discriminar socialmente determinadas populações. Então, sendo bem objetivo: “ah, não! A favela é onde vão estar os criminosos”. Não! Pelo contrário! Nas comunidades onde a grande maioria das pessoas são pessoas honestas e trabalhadores, mas, lá, por vários fatores, se escondem alguns criminosos! Nós temos que tomar cuidado com esses preconceitos que nós temos como pessoas, como seres humanos e, ao utilizarmos determinadas ferramentas, nós replicarmos esses preconceitos! Tem que ser feita uma análise social, tem que ser feita uma análise econômica, mas, tomar cuidado com essas heurísticas, que são as conclusões de forma errada, tirar conclusões de forma preconceituosa! Tem que ser feita essa análise social, análise criminal, mas sem utilizar paradigmas preconceituosos!

ANFITRIÃO:

Nos últimos anos, observamos uma rápida expansão do uso de inteligência artificial, aprendizado de máquina e análise de big data na segurança pública. Como essas tecnologias poderão potencializar os modelos de predição criminal nos próximos anos e quais cuidados institucionais devem acompanhar essa evolução?

CONVIDADO:

O uso da Inteligência Artificial já faz parte do nosso dia a dia, nas mais diversas atividades! Logicamente, a polícia, a segurança pública devem se adaptar a esta nova realidade e utilizar estas ferramentas para agilizar, para padronizar, para ter um maior alcance, para ter o melhor resultado, principalmente na parte do planejamento operacional. A Inteligência Artificial está cada vez mais se aperfeiçoando e nós devemos nos adaptar a essa realidade!

ANFITRIÃO:

Considerando os avanços da ciência de dados, da inteligência policial e da análise preditiva, quais passos precisam ser dados hoje para que as corporações estejam preparadas para essa transformação?

CONVIDADO:

As organizações policiais precisam se adaptar a essas novas realidades! Elas precisam explorar esses novos conceitos! Elas precisam agilizar o tempo de resposta! A Inteligência Artificial ajuda a dar uma resposta mais rápida. Então, se um crime aconteceu ontem ou pode acontecer amanhã, realmente deve ser feito um planejamento, de um dia para o outro. Não dá mais para a gente esperar alguns dias para mudar o local onde vamos colocar as viaturas, onde vamos colocar os policiais! Tem que ter uma agilidade muito grande nessa resposta! Então, assim como o crime se atualiza, se aperfeiçoa, a polícia precisa aperfeiçoar os seus métodos!

ANFITRIÃO:

Coronel; estamos marchando para o final de nossa conversa! Repriso os agradecimentos por compartilhares conosco as suas reflexões! Ao discutir a aplicação da Teoria Econômica do Crime aos métodos de predição criminal estatística, teu estudo nos mostra que a prevenção qualificada exige não apenas conhecimento do passado, mas também a capacidade de compreender os fatores que moldam os comportamentos criminosos e influenciam a dinâmica dos territórios. Parabenizando-o pela pesquisa, deixo este espaço para suas considerações finais. Grande abraço!

CONVIDADO:

Muito obrigado pela oportunidade, para que nós pudéssemos expor esse trabalho! Um agradecimento à Universidade Estadual do Estado de São Paulo, na figura do meu supervisor da pesquisa de pós doutorado, o Dr. Silvio Govoni! Muito obrigado à Polícia Militar, por ter autorizado que nós fizéssemos essa pesquisa, e novamente muito obrigado a oportunidade que cuidado aí para que a gente pudesse falar um pouquinho sobre o assunto! Obrigado estamos à disposição!

ANFITRIÃO:

Honoráveis Ouvintes! Este foi mais um episódio do Hextramuros! Sou Washington Clark dos Santos, seu anfitrião! Acesse o nosso website e saiba mais sobre este conteúdo! Inscreva-se e compartilhe o nosso propósito! Será um prazer ter a sua colaboração! Pela sua audiência, muito obrigado e até a próxima!

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About the Podcast

Hextramuros Podcast
Vozes conectando propósitos, valores e soluções da segurança pública, justiça criminal e tecnologias!
Ambiente para narrativas e entrevistas com pesquisadores e/ou profissionais da segurança pública, justiça criminal e empresas de tecnologia, no intuito de estabelecer e/ou ampliar a conexão com temas, produtos e serviços de interesse das referidas áreas.
Trata-se, também, de espaço em que este subscritor, lastreado na vivência profissional e experiência amealhada nas jornadas no serviço público, busca conduzir (re)encontros, promover ideias e construir cenários para a aproximação entre a academia, a indústria e as forças de segurança.

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Washington Clark Santos

Produtor e Anfitrião.
Foi servidor público do estado de Minas Gerais entre 1984 e 1988, atuando como Soldado da Polícia Militar e Detetive da Polícia Civil.
Como Agente de Polícia Federal, foi lotado no Mato Grosso e em Minas Gerais, entre 1988 e 2005, ano em que tomou posse como Delegado de Polícia Federal, cargo no qual foi lotado em Mato Grosso - DELINST -, Distrito Federal - SEEC/ANP -, e MG.
Cedido ao Ministério da Justiça, foi Diretor da Penitenciária Federal de Campo Grande/MS, de 2009 a 2011, Coordenador Geral de Inteligência Penitenciária, do Sistema Penitenciário Federal, de 2011 a 2013.
Atuou como Coordenador Geral de Tecnologia da Informação da PF, entre 2013 e 2015, ano em que retornou para a Superintendência Regional em Minas Gerais, se aposentando em fevereiro de 2016. No mesmo ano, iniciou jornada na Subsecretaria de Segurança Prisional, na SEAP/MG, onde permaneceu até janeiro de 2019, ano em que assumiu a Diretoria de Inteligência Penitenciária do DEPEN/MJSP. De novembro de 2020 a setembro de 2022, cumpriu missão na Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, no Ministério da Economia e, posteriormente, no Ministério do Trabalho e Previdência.
A partir de janeiro de 2023, atua na iniciativa privada, como consultor e assessor empresarial, nos segmentos de Inteligência, Segurança Pública e Tecnologia.