Episode 195

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31st Jul 2026

Fusionamento de Dados e Inteligência de Decisões. Capítulo II.

No segundo capítulo deste conteúdo, seguimos com LUIZ HENRIQUE BORGES, Diretor de Operações da INSPECT, a explorar como diferentes bases de informação podem ser conectadas para revelar relações invisíveis aos métodos tradicionais de análise, ampliando a capacidade de investigação, produção de inteligência e apoio à tomada de decisão nas instituições de segurança pública e justiça criminal.

Saiba mais!

Transcript
ANFITRIÃO:

Honoráveis Ouvintes! Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do Hexramuros! Sou Washington Clark dos Santos, seu anfitrião! No bloco anterior, compreendemos que o maior desafio das instituições de segurança pública e justiça criminal já não é, necessariamente, a escassez de informações, mas a capacidade de transformar o enorme volume de dados disponíveis em conhecimento útil para orientar decisões estratégicas e operacionais. Em um cenário em que investigações, operações policiais, inteligência financeira, monitoramento de fronteiras, sistema prisional e persecução penal produzem diariamente milhões de registros, torna-se indispensável compreender como essas informações podem deixar de existir em compartimentos isolados e passar a compor uma visão integrada da realidade. É justamente nesse ponto que surge um conceito cada vez mais presente nas organizações de inteligência ao redor do mundo: o fusionamento de dados! Borges; o termo fusionamento de dados tem sido cada vez mais utilizado no campo da inteligência, mas ainda carece de compreensão mais ampla por parte de muitos gestores públicos. Poderia explicar de forma objetiva e aplicada à realidade brasileira O que é o fusionamento de dados e quais são os seus principais diferenciais em relação aos modelos tradicionais de análise de informações?

CONVIDADO:

Antes de entrar na temática é importante a gente contextualizar: eu tive a oportunidade, durante a primeira semana de junho, de estar por mais um ano em Praga, participando do evento principal do setor de inteligência que a gente tem no mundo - o ISS World - e o que a gente via nesse evento, esse ano em específico, eram plataformas de fusionamento de dados, com o uso, principalmente, de Inteligência Artificial Generativa - esses prompts, chats de interação a partir dos dados imputados. Então, fusionamento de dados já era uma tendência que a gente observava no segmento de segurança pública que, agora, deve ganhar um novo episódio, sobretudo, com o advento da Inteligência Artificial. Ao longo dos anos, as agências de segurança pública foram desenvolvendo sistemas internos - bases de dados proprietárias - sistemas esses que tratam de um determinado assunto, de um determinado dado, e isso foi crescendo e expandindo - como tudo - e tendo, então, diversas bases de dados, informações fragmentadas, cada sistema trazendo o seu dado específico! Fazendo um paralelo com o que existe, hoje, de algumas das informações disponíveis para os nossos clientes consultarem. Boletins de ocorrências, dados do sistema prisional, informações cadastrais desses sistemas do tipo Serasa, Credlink e etc, informações financeiras, quebras de sigilo bancário, quebras de sigilo fiscal, quebras de sigilo telemático, telefônico, registros de empresas, redes sociais, imagens, dados não estruturados, relatórios de inteligência, enfim, são alguns dos dados. Hoje, o problema não é ausência de dado. Muito pelo contrário, é o excesso dele e como tratar esse dado de forma unificada! As agências e os atores estão sendo atropelados pela quantidade de dados que são gerados! Dados diversos crescendo num volume muito grande, em uma velocidade absurda! Então, esse é um problema essencialmente de big data. E o fusionamento de dados nada mais é do que a capacidade de integrar num ponto central todas essas informações para facilitar o trabalho de análise. De forma objetiva, fusionamento de dados nada mais é que a capacidade de reunir, integrar, correlacionar e analisar todos esses dados de diferentes fontes numa interface única, num ponto único, de modo a facilitar o trabalho de quem está interagindo com aquelas informações. O fusionamento de dados não é, simplesmente, o acúmulo de dados! Não é, simplesmente, criar um banco de dados enorme, mas é, principalmente, transformar esses dados diversos de modo a ser capaz, então, de produzir conhecimento e gerar inteligência! A gente tem falado muito sobre Inteligência, mas, o fusionamento de dados é útil à atividade de segurança pública - de investigação e de Inteligência - propriamente dito! Em resumo, o fusionamento de dados é sair dessa lógica de consultas a sistemas isolados - relatórios fragmentados - para uma lógica de visão integrada, visual, auditável e orientada à tomada de decisão. É, basicamente, transformar volume de dados dispersos em capacidade de ação. É visualizar de forma centralizada todo esse dado hoje desconectado numa visão unificada, integrada, normalizada que entregue ao analista a capacidade de interação rápida, ágil e de visualização de coisas que antes eram praticamente impossíveis de serem notadas, percebidas, visualizadas exatamente porque a integração desse dado ficava a critério do analista. Ele precisava conectar os pontos e montar esse quebra-cabeça por ele mesmo! Quando a gente fala de fusionamento de dados e o tratamento centralizado e unificado, a gente já tem os pontos conectados e o quebra-cabeça praticamente montado, o que facilita muito a visualização de dados, principalmente, através de correlações de eventos, de informações de situações que, antes, eram quase que impossíveis de serem vistas!

ANFITRIÃO:

Um dos grandes gargalos institucionais não está na ausência de dados, mas sim na dificuldade de transformá-los em decisões eficazes. Como as plataformas de inteligência de decisões contribuem para reduzir essa lacuna entre coleta de dados, análise e tomada de decisão estratégica e operacional?

CONVIDADO:

Acho que esse é o problema central da nossa conversa! Na prática, o problema não é a ausência de dados. É o excesso deles. As agências e os agentes estão sendo atropelados pelo volume de dados e de informações. Há uma diferença muito grande entre dado, informação, inteligência e decisão. Se a gente pudesse simplificar, o dado seria o registro bruto; a informação é esse dado – esse registro bruto – contextualizado; a inteligência é a análise qualificada dessa informação e, a decisão, é quando essa inteligência orienta uma ação concreta, uma tomada de decisão, principalmente, pelo gestor público. E o gargalo está justamente nessa passagem entre transformar o dado em informação - em inteligência - e, por fim, em uma tomada de decisão! Muitas instituições conseguem coletar dados, conseguem armazenar esse dado - a informação – conseguem, inclusive, produzir os relatórios, mas, tem dificuldade de transformar tudo isso em tomada de decisão rápida, segura e operacionalmente útil! E as plataformas de inteligência de decisões baseada em fusionamento de dados entra exatamente nesse ponto! O objetivo delas é reduzir exatamente essa lacuna, a distância entre coleta e a análise do dado e a tomada de decisão pelo gestor. As plataformas buscam ajudar a responder perguntas que são muito objetivas para o gestor, para o analista, para o operador: “quem são os principais alvos? - para a gente conectar com a realidade dos nossos clientes, da segurança pública - Quais vínculos são relevantes no contexto dos principais alvos? Quais eventos que estão conectados? Que território merece prioridade de atuação? Manchas criminais? Quais grupos estão se expandindo e para quais territórios? Existe repetição de padrão? A ameaça está ganhando força? Onde a gente concentra equipe, recurso e atenção? A plataforma não serve simplesmente para o armazenamento de dados. Muito pelo contrário; ela serve para poder organizar esse raciocínio, adicionar contexto, correlacionar informação de modo a entregar respostas para a tomada de decisão pelo gestor! Em segurança pública, talvez, um dos ativos mais críticos e importantes seja exatamente o tempo! Então, uma informação útil entregue tarde demais perde o seu valor! A inteligência na tomada de decisões tem muito a ver com a tempestividade! É entregar informação certa, para a pessoa certa, no momento certo e com o nível de confiança adequado! Num cenário em que a gente tem excesso de dados e recursos, tanto humanos quanto tecnológicos limitados, a instituição precisa saber onde atuar primeiro. Essas plataformas ajudam a identificar a relevância, a recorrência, risco, vínculos, padrões e, isso, permite separar aquilo que é ruído do que, de fato, precisa ser analisado. Do ponto de vista operacional, essas plataformas ajudam e apoiam numa investigação específica, seja através, por exemplo, de uma análise unificada de extrações de celulares à identificação de redes criminosas e das conexões e vínculos existentes entre os alvos dessa rede, oriunda ou não dos dados dessas extrações. Isso, obviamente, vai permitir com que haja o melhor planejamento de operações, uma melhor análise de cenário de possíveis ameaças no contexto operacional, relacionados aos agentes envolvidos ou não em um determinado contexto. Do ponto de vista estratégico, ajuda o gestor a compreender tendências e, obviamente, isso auxilia na alocação de recursos, a identificação de áreas que precisam ser analisadas ou precisam de uma atuação mais específica ou eficaz por parte dos agentes de segurança pública, reavaliação inclusive de políticas públicas, orienta as decisões institucionais e por aí vai...

ANFITRIÃO:

Historicamente, órgãos de segurança pública e justiça criminal operam com bases de dados fragmentadas e, muitas vezes, não interoperáveis. Quais são os principais desafios técnicos e institucionais para promover a integração dessas bases e como as soluções tecnológicas atuais conseguem superar essas barreiras?

CONVIDADO:

Essa pergunta ajuda a colocar o tema no seu devido lugar! Fusionamento de dados e essas plataformas de inteligência de decisões não são “balas de prata”! Não é uma solução mágica que se instala no fim de semana e, no dia seguinte, resolve todos os problemas de integração de uma instituição! Na verdade, talvez, o primeiro ponto seja reconhecer que esse tipo de projeto envolve desafios técnicos, institucionais e culturais. No ponto de vista institucional, acho que o maior desafio é a lógica dos silos, as ilhas: historicamente, os órgãos de segurança pública foram construindo suas bases de dados de forma fragmentada. Cada uma dessas bases, desses sistemas, com a sua finalidade, sua governança, seu padrão de visualização, suas regras de acesso. Então, a título de exemplo, tem algumas bases de dados de uso restrito das polícias civis e outras das polícias militares! O sistema prisional, por sua vez, já tem outros! Ministério Público tem sua própria! O Judiciário também e assim por diante! Não se trata apenas de tecnologia! Existe uma questão de cultura institucional, de confiança entre os órgãos, estabelecimento de acordos de cooperação técnica, definição de responsabilidades, segurança no acesso aos dados, controle de acesso, sem falar dos casos em que, às vezes, a empresa de processamento de dados do estado é quem desenvolveu o sistema, é quem armazena a base e, por sua vez, é quem detém o controle ou o monopólio, por assim dizer! Há ainda uma divergência, uma diferença muito grande em níveis de maturidade entre as diversas agências existentes Brasil afora! Nos aspectos relacionados aos desafios técnicos, têm alguns que são extremamente relevantes nesses tipos de projeto! Um deles é a normalização do dado. Então, tem, às vezes, diversas bases armazenando o mesmo dado de forma distinta! Outro desafio é o tratamento do dado não estruturado, que é uma realidade dentro das agências de segurança pública. Muita informação, hoje, está disponível em relatórios de inteligência, relatórios de investigação, laudos periciais, boletins de ocorrência, documentos digitalizados, imagens, anexos, peças investigativas. Tem ainda o desafio do dado não estruturado! Tratar esse dado para poder transformar aquela informação, aquele dado, aquele identificador que tem valor e pode ser útil. A gente tem alguns estados com agências espalhadas em regionais em cidades do interior que armazenam também informações. Então, acessar esse dado remotamente através de links pode ser também um desafio relacionado à infraestrutura, seja de armazenamento, seja de processamento ou, mesmo, de transmissão e tráfego de dados. É importante falar que esse tipo de projeto não é uma “bala de prata” e não são soluções do tipo plug and play que você, simplesmente, implanta no final de semana e, na segunda-feira, já está tudo funcionando! Exige consultoria, planejamento, diagnóstico das bases existentes, a normalização do dado, definição de prioridades, desenho de arquitetura, carga de dados, migração, integração dos sistemas legados, capacitação dos times! São projetos que começam a gerar valor, para aqueles que estão em fase de implantação, a partir do sexto mês. Em resumo, não é uma jornada fácil e trivial - muito pelo contrário e longe disso - exige tempo, investimento, patrocínio institucional e algum nível de maturidade. Mas, quando é bem implementado é uma mudança de patamar. É um divisor de águas na forma como a instituição produz inteligência, investiga e toma decisões!

ANFITRIÃO:

Honoráveis Ouvintes! Uma nova pausa se faz necessária! Ao longo deste bloco, ficou claro que o verdadeiro potencial das plataformas de Inteligência de Decisões não reside apenas na capacidade de reunir informações provenientes de diferentes sistemas, mas principalmente em romper barreiras históricas entre bases de dados, áreas de conhecimento e instituições, transformando informações dispersas em uma compreensão integrada da realidade. Mas, compreender a tecnologia é apenas parte da jornada! Por isso, convido a audiência para manter-se conectada, pois, no próximo bloco, vamos aproximar essa discussão do cotidiano das instituições brasileiras, explorando situações concretas em que o fusionamento de dados pode ampliar a capacidade investigativa, fortalecer a produção de inteligência e apoiar decisões estratégicas no enfrentamento ao crime organizado. Sou Washington Clark dos Santos, seu anfitrião! Acesse nosso website e saiba mais sobre este conteúdo! Inscreva-se e compartilhe este propósito! Será um prazer ter a sua colaboração! Pela sua audiência, muito obrigado e até a próxima!

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About the Podcast

Hextramuros Podcast
Vozes conectando propósitos, valores e soluções da segurança pública, justiça criminal e tecnologias!
Ambiente para narrativas e entrevistas com pesquisadores e/ou profissionais da segurança pública, justiça criminal e empresas de tecnologia, no intuito de estabelecer e/ou ampliar a conexão com temas, produtos e serviços de interesse das referidas áreas.
Trata-se, também, de espaço em que este subscritor, lastreado na vivência profissional e experiência amealhada nas jornadas no serviço público, busca conduzir (re)encontros, promover ideias e construir cenários para a aproximação entre a academia, a indústria e as forças de segurança.

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Washington Clark Santos

Produtor e Anfitrião.
Foi servidor público do estado de Minas Gerais entre 1984 e 1988, atuando como Soldado da Polícia Militar e Detetive da Polícia Civil.
Como Agente de Polícia Federal, foi lotado no Mato Grosso e em Minas Gerais, entre 1988 e 2005, ano em que tomou posse como Delegado de Polícia Federal, cargo no qual foi lotado em Mato Grosso - DELINST -, Distrito Federal - SEEC/ANP -, e MG.
Cedido ao Ministério da Justiça, foi Diretor da Penitenciária Federal de Campo Grande/MS, de 2009 a 2011, Coordenador Geral de Inteligência Penitenciária, do Sistema Penitenciário Federal, de 2011 a 2013.
Atuou como Coordenador Geral de Tecnologia da Informação da PF, entre 2013 e 2015, ano em que retornou para a Superintendência Regional em Minas Gerais, se aposentando em fevereiro de 2016. No mesmo ano, iniciou jornada na Subsecretaria de Segurança Prisional, na SEAP/MG, onde permaneceu até janeiro de 2019, ano em que assumiu a Diretoria de Inteligência Penitenciária do DEPEN/MJSP. De novembro de 2020 a setembro de 2022, cumpriu missão na Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, no Ministério da Economia e, posteriormente, no Ministério do Trabalho e Previdência.
A partir de janeiro de 2023, atua na iniciativa privada, como consultor e assessor empresarial, nos segmentos de Inteligência, Segurança Pública e Tecnologia.