Episode 183

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8th May 2026

THE EXODUS ROAD - ESTRATÉGIAS E DESAFIOS NO COMBATE AO TRÁFICO HUMANO

Ao longo desta conversa com CÍNTIA MEIRELLES buscaremos compreender como funcionam as redes internacionais de tráfico de pessoas, quais são os desafios de investigação e enfrentamento, e qual é o papel de organizações como a The Exodus Road na luta global contra esse crime que atenta direta e profundamente contra a dignidade humana.

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Transcript
ANFITRIÃO:

Honoráveis Ouvintes! Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do Hextramuros! Sou Washington Clark dos Santos, seu anfitrião!

O tema sobre o qual retornamos a abordar neste conteúdo revela uma das faces mais cruéis e silenciosas da criminalidade contemporânea: o tráfico de pessoas!

Considerado um dos mercados ilícitos mais lucrativos do mundo, o tráfico humano movimenta bilhões de dólares anualmente, alimentando redes criminosas transnacionais que exploram homens, mulheres e crianças em contextos de abuso sexual, trabalho escravo, servidão doméstica, casamento forçado, remoção ilegal de órgãos e outras formas degradantes de violação da dignidade humana. Segundo organismos internacionais, trata-se de um crime complexo, altamente organizado e frequentemente invisível, que opera nas sombras de estruturas sociais vulneráveis, explorando desigualdades econômicas, conflitos, migrações forçadas e fragilidades institucionais. Nesse quadro, organizações da sociedade civil têm desempenhado um papel essencial na identificação de casos, apoio às vítimas e colaboração com autoridades de diversos países. Entre essas organizações destaca-se a “The Exodus Road”, uma Organização não Governamental internacional dedicada ao combate ao tráfico de pessoas que atua em diferentes continentes por meio de investigações de campo, apoio às forças de segurança, resgate de vítimas e fortalecimento institucional no enfrentamento a esse tipo de crime. Para nos ajudar a compreender melhor a dimensão desse fenômeno, seus desafios operacionais e as estratégias globais de enfrentamento, recebemos Cíntia Meirelles Azevedo, Especialista em Assuntos Humanitários e Diretora da “The Exodus Road”, organização que desenvolve um trabalho consistente no apoio às autoridades e na proteção de vítimas do tráfico humano em diversos países. Ao longo desta conversa, buscaremos compreender como funcionam as redes internacionais de tráfico de pessoas, quais são os desafios de investigação e enfrentamento e qual é o papel de organizações como a “The Exodus Road” na luta global contra esse crime que atenta direta e profundamente contra a dignidade humana! Cíntia; na satisfação por recebê-la, a saúdo com as boas-vindas, agradecendo sua gentileza em aceitar o convite para iluminar este canal! Uma honra tê-la conosco! Para iniciarmos nossa conversa, peço que nos ajude a compreender a real dimensão desse problema: quando falamos em tráfico de pessoas, muitas vezes, o imaginário coletivo ainda associa esse crime apenas à exploração sexual. Entretanto, sabemos que ele envolve diversas outras formas de abusos. A partir da sua experiência na “The Exodus Road”, como podemos entender, hoje, a dimensão global do tráfico humano, suas principais modalidades e as regiões do mundo mais impactadas por esse fenômeno?

CONVIDADA:

Falar sobre o crime de tráfico de pessoas, talvez, seja a gente lembrar um pouco da novela “Salve Jorge” ou, talvez, lembrar dos casos e pensar que esse é um crime que não acontece mais! Porém, esse é um dos maiores crimes do mundo! Segundo a ONU e a OIM, ele estaria ranqueado como o terceiro maior crime do mundo, perdendo apenas para o crime de tráfico de drogas e o crime de contrabando de armas! Mas, eu quero fazer uma leitura de um crime que eu tenho notado - que até então a gente dizia que ele era um crime transversal - porém, hoje, a gente nota que as agências policiais no Brasil já estão mencionando que as organizações criminosas têm mobilidades criminais dentro delas! Então, o crime passaria a ser um crime convergente! Na última conferência da Interpol - que a gente participa do Human Trafficking Expert Group, com mais de cento e sessenta e nove polícias do mundo - a gente aprendeu uma palavra nova chamada “policrime”, que seria nada mais nada menos do que as organizações criminosas terem mobilidades criminais dentro delas. Então a gente nota, por exemplo, que o PCC tem o tráfico de drogas, o tráfico de armas, a lavagem de dinheiro, e eu poderia afirmar que ele tem o tráfico de pessoas! Então, a organização criminosa passa a ter essa convergência do crime. O crime de tráfico de pessoas é tipificado no Código Penal Brasileiro. É uma lei nova, de dois mil e dezesseis, a Lei treze mil, trezentos e quarenta e quatro, que diz que o tráfico acontece de forma interna e internacional, ou seja; é a transferência de pessoas, é o alojamento de pessoas através de violência, coação, engano, com a finalidade de explorar para trabalho escravo, para adoção ilegal, para tráfico de órgãos. Eu poderia, também, mencionar aqui o casamento forçado, a mendicância. Enfim; é o crime que a gente escuta e percebe muito mais na forma da exploração sexual, onde globalmente as mulheres são as maiores vítimas - e um terço delas são crianças! Há uma estimativa de que no mundo, hoje, tenham mais de cinquenta milhões de pessoas sofrendo esse crime! Imagine, então, pensar que dessas cinquenta milhões, um terço são crianças que sofrem esse crime para exploração sexual! Ou seja; quando a gente nota o Brasil e os dados do Brasil, a gente vê que o Brasil não tem um número que possa ser significativo ao que a ONU e que os países estão dizendo que esse crime está acontecendo! Então, esse é um crime pouco visto, talvez, por muito da nossa ignorância de não notá-lo! Talvez, por exemplo, seria a questão da exploração sexual: muitas vezes nós notamos que existam pessoas que estão, como a gente diz, profissionais do sexo, mas, nós não notamos se essas pessoas de fato são livres. Muitas delas estão em situações de total exploração! Foram tiradas das suas cidades. Foram levadas para outros lugares. São colocadas em locais onde há uma servidão por dívida! Eu diria que nós não notamos porque a gente parte do pressuposto de que as pessoas estão ali porque querem, porque são livres. O número de vítimas crescente no mundo traz um alerta, principalmente hoje, que nós notamos muitos brasileiros sendo aliciados de forma online para o Sudeste Asiático. E eu vou além; não apenas para o Sudeste Asiático, mas, para Dubai, Oman, Armênia, Rússia, Ucrânia, Serra Leoa e Nigéria!

ANFITRIÃO:

O tráfico de pessoas é frequentemente descrito por especialistas como um crime altamente adaptável, que se aproveita de fragilidades sociais, econômicas e institucionais. Na prática, como operam essas redes criminosas transnacionais? Quais são os principais métodos utilizados para recrutar, transportar e explorar vítimas E de que forma essas organizações conseguem manter essas atividades ocultas por longos períodos?

CONVIDADA:

Esse é um crime que obviamente movimenta bilhões por ano! Então, é um crime que, infelizmente, vai ser muito difícil da gente ver o seu fim! Porque as organizações criminosas que operam de forma transnacionais estão muito à frente e já entenderam que elas operam de uma forma muito difícil de fazer com que as polícias atuem com uma velocidade a ponto de frear esse crime. Vou explicar! E eu quero explicar dizendo com o meu próprio exemplo: eu sou uma pessoa que adoro dirigir! Eu gosto muito de dirigir rápido e, eu acho, que se eu pudesse voltar no tempo, eu seria piloto de Fórmula 1, de kart! Eu não sei quantos aqui assistiram aquele filme do “Grande Roubo” que foi feito pelo “grande astro” do filme que era o Mini Cooper! Eu, após ver aquele filme - eu já gostava do Mini Cooper, já gostava de como ele é pequeno, de como você senta no volante e você sente o poder do carro e, é um carro rápido! Então, obviamente, eu queria ter um Mini Cooper! Eu cheguei para o meu marido e falei assim: “olha, amor, eu quero trocar meu carro. Eu quero muito comprar um Mini Cooper!” E aí o meu marido, muito sensato - nessas horas a gente tem que dar o braço a torcer - me disse o seguinte: “amor, não vamos comprar um Mini Cooper, não, porque é um carro com uma manutenção alta e é um carro que tem uma desvalorização, também, alta! Então, acho melhor a gente não comprar o carro!”. Aí eu pergunto: vocês acham que eu ouvi o meu marido? Aliás, é a mulher que manda, né? Obviamente, eu não ouvi o meu marido! Eu comprei o meu Mini Cooper! E por que que eu estou usando o meu próprio exemplo para dizer e o que tem a ver com o tráfico de pessoas? Tem a ver que o tráfico de pessoas, a maior isca desse crime, é o sonho! É o sonho do menino que quer ser jogador de futebol e que aceita uma proposta para ir jogar na Espanha! É o sonho da menina que quer ser modelo de passarela e aceita ir desfilar em Paris! É o sonho do jovem que, recém-formado, aceita uma proposta para ir trabalhar do outro lado do mundo como atendente de telemarketing! É o sonho que deixa a gente vulnerável! Porque a gente ignora todos os alertas! Nós ignoramos todas as instruções! Nós ignoramos todos os sinais possíveis! Porque o sonho nos cega e é muito difícil a gente desacreditar do sonho! E como as organizações criminosas se destacam? Primeiro; elas estão muito organizadas! Elas já entenderam que o aliciamento é online. É cibernético. Que elas podem, assim como vocês estão escutando esse podcast, acionar você pela palma da sua mão, por uma proposta que vai bater na sua mídia social ou no seu LinkedIn quando você está procurando emprego. E é ali que mora a pegadinha! Porque as organizações criminosas têm falsos sites, falsas operadoras de trabalho com propostas incríveis, com salários que ninguém ganha recém-formado. Essas propostas vêm pelas mídias sociais, a conversa migra para plataformas que têm um sistema de criptografia muito bom como Signal, por exemplo, Telegram, até mesmo WhatsApp! E ali começa uma transação de contratação. A contratação sempre vem com uma proposta de salário incluindo viagem paga, hospedagem paga, alimentação paga e, obviamente, comissão e um salário que ninguém diria não! E aí, quando essa vítima aceita essa proposta e chega no seu destino - que a Interpol diz que o berço do crime cibernético no Sudeste Asiático movimenta 3 trilhões de dólares por ano - nesses países como: Laos, Camboja, Mianmar, Vietnã (aí, eu vou além um pouquinho, saindo do Sudeste Asiático, incluindo Armênia, Oman, Dubai, Serra Leoa, Nigéria) lá, são complexos para práticas cibernéticas de golpe! Estelionato do amor, investimento em cripto, é o Pig Butchering, é simplesmente o crime da Polícia Federal que a gente viu, recentemente, sendo noticiado! E esses golpes, nada mais é do que brasileiros do outro lado do mundo sendo obrigados a fazer ligações constantemente para que as vítimas do outro lado do mundo, os próprios brasileiros, caiam e façam essa remessa financeira! Quando essa remessa chega na conta do outro lado do mundo, automaticamente, é transformado em cripto. O cripto é passado para outras carteiras e essas carteiras são pulverizadas e, aí, uma forma de lavagem de dinheiro que as organizações criminosas encontraram, facilmente, de driblarem e de dificultar as polícias para o combate desse crime! É assim que tem funcionado e, hoje, um crime que é transnacional exige uma resposta local e imediata com uma ação global e eficiente para que a gente consiga paralisar esse crime!

ANFITRIÃO:

O combate ao tráfico de pessoas exige uma atuação integrada entre governos, organismos internacionais e sociedade civil. Nesse aspecto, qual é exatamente o papel de uma organização como a “The Exodus Road” e como ela atua no apoio às investigações, na cooperação com as autoridades policiais e no processo de identificação e resgate de vítimas?

CONVIDADA:

A Exodus hoje no Brasil tem alguns objetivos e nós complementamos o que nós notamos que há necessidade! Explico: nós, hoje, temos feito várias campanhas de prevenção. Ano passado, fizemos uma campanha chamada “Vozes pela Liberdade”, em parceria com o TikTok e com mais de oitenta artistas que utilizaram suas plataformas para falar sobre o que é o tráfico de pessoas para exploração sexual de crianças e adolescentes. E essa campanha atingiu cento e vinte milhões de views, ou seja, eu poderia dizer que a gente atingiu quase que quarenta por cento da população brasileira! A gente faz campanhas e, uma das questões que a gente mais foca e que mais nós temos feito, é um curso de capacitação para as forças de segurança. Nós não somos os expertos do assunto. Então, nós convidamos os especialistas do assunto, criamos uma plataforma de ensino em formato de masterclass, onde trouxemos a Polícia Federal, o Ministério Público do Trabalho, a Celebritte e tantos outros especialistas para falar sobre o que é o crime de tráfico de pessoas e como ele acontece, para dizer como se investigar. A gente juntou especialistas para definirem o que é o crime, como ele acontece no Brasil, com a técnica de investigação, para que a polícia, entendendo isso, possa tipificar corretamente o crime. Também, uma das outras questões que nós temos como organização e atuamos no Brasil, é oferecer equipamentos de tecnologia para as polícias, para as divisões de Inteligência, lá na ponta. Nós temos uma parceria com a Celebrite, nós temos uma parceria com a Clearview, com a Techbiz e nós entregamos essa tecnologia lá na ponta para a polícia. Outras tecnologias que nós entregamos e doamos também, tanto para a Polícia Federal, tanto para a Polícia no Estado de São Paulo: drones, câmeras, para ajudar esses times de investigação. No que tange ao resgate - ao aftercare - a Exodus Road já tem mais de quatrocentos sobreviventes do Brasil e não diretamente da Exodus, mas porque muitos desses casos foram através da capacitação das agências policiais que, entendendo, se aperfeiçoando, conseguiram identificar que muitos dos crimes aonde já haviam investigações, ali também tinha o crime de tráfico de pessoas. Eu vou dar um exemplo de sucesso que nós consideramos, que é a polícia de fronteira do Paraná, o BPFRON: O BPFRON sempre teve um olhar, por estar na fronteira, focado no tráfico de drogas e no descaminho. Quando a gente oferece a capacitação, além deles olharem para esses crimes, eles começam a olhar também para pessoas como objeto do crime, ou seja; a polícia começa a ter um olhar muito mais amplo! Nem todas as pessoas - os sujeitos - são vítimas, mas, certamente há muita vítima de tráfico de pessoas dentro dos outros crimes! Esse tem sido o nosso trabalho e, obviamente, um dos trabalhos mais incríveis é o oferecimento de cuidado pós-resgate - acolhimento - oferecemos acompanhamento emocional para essas vítimas e o objetivo é reestruturar essa vítima para que ela não volte para a situação de onde ela estava e possa continuar em liberdade e seguir e trilhar um novo estilo de vida.

ANFITRIÃO:

Uma característica importante da atuação da The Exodus Road é justamente o trabalho investigativo que apoia operações conduzidas por autoridades locais. Como se dá essa cooperação entre a organização não governamental e as forças de segurança em diferentes países e de que forma são estabelecidos os protocolos para garantir que as investigações e os resgates ocorram dentro de parâmetros legais e de proteção às vítimas?

CONVIDADA:

No Brasil, o nosso maior objetivo é oferecer capacitação para as polícias. A gente entende que esse é um trabalho de polícia, e a gente oferece para as polícias essa capacitação, a tecnologia para que as polícias possam observar o crime. Em outros lugares do mundo, onde é permitido, a Exodus tem times de pessoas, que são ex-policiais, muitas vezes, e eles fazem investigações locais, coletam essas informações e entregam para as polícias locais para que, assim, siga-se o trâmite segundo o sistema de justiça de cada país. No Brasil a gente tem focado na capacitação e na suplementação com tecnologia para as agências policiais e tem visto que isso tem sido de muito sucesso. Obviamente, como nós também temos uma cadeira na Interpol, a gente acaba recebendo muitas informações das vítimas! A vantagem de ser uma sociedade civil, uma ONG, é que as pessoas confiam na gente! Elas nos veem como pessoas que querem ajudar. E a gente tem tentado fazer com que essas informações cheguem às agências policiais para que elas possam, a partir desse material, seguir e fazer uma investigação completa. Uma das outras coisas que eu tenho notado como sociedade civil e como ONG é fortalecer a imagem das polícias, para que a comunidade, a sociedade confie nas forças de segurança, para que elas possam fazer essa denúncia, para que elas possam se sentir seguras também! Eu acredito que a união da sociedade civil com as forças de segurança soma! Só traz benefícios! Porque eu acredito que nós podemos complementar e podemos nos auxiliar para que, no final, todos se sintam mais protegidos e sintam que os crimes tenham de fato essa redução. E eu não falo somente aqui como Exodus, focada no tráfico de pessoas! Eu acho que a sociedade civil, complementa muitas situações. Qual polícia, de qual cidade, que não vai precisar de uma ONG que esteja perto para acolher uma mulher vítima de violência doméstica, por exemplo? Qual polícia que numa situação de acolher uma criança ou um adolescente não vai ter uma sociedade civil, uma ONG, próxima, que possa ter um programa para esse adolescente, para essa criança? Eu acredito que a gente precisa fortalecer esses vínculos e ter protocolos que beneficiem a todos. A Exodus faz esse papel através da capacitação e através de doações de tecnologia para a polícia. E, obviamente, com a Interpol a gente passa os relatórios, quando nós recebemos das vítimas, para que a Interpol faça e distribua para as polícias dos respectivos países.

ANFITRIÃO:

Embora muitas vezes o tema seja tratado como um problema distante, o Brasil também é impactado por redes de tráfico humano, tanto como país de origem quanto de destino de vítimas. Na sua avaliação, quais são, hoje, os principais desafios do enfrentamento ao tráfico de pessoas no Brasil e quais as características específicas do cenário brasileiro que merecem atenção especial?

CONVIDADA:

Acho que o Brasil é um país de tamanho continental! Então, você que está escutando, eu vou te fazer uma pergunta: como é que você faria uma denúncia do crime de tráfico de pessoas? Você sabe qual é o canal de denúncia? Você sabe o que fazer? Se você não souber essas respostas, e eu não quero aqui constranger, mas sim levantar esse pensamento, é justamente porque o Brasil não tem muitas campanhas de prevenção e campanhas que mostrem os canais de denúncia. O Brasil tem um marco legal muito robusto, mas a gente precisa ver as implementações dessas políticas públicas! Hoje, no Brasil, a gente vê que é um país de rota, é um país de destino e é um país que pouco tem, também, o cuidado pós-resgate. Uma outra colocação é a questão quando nós observamos o tráfico de pessoas para exploração laboral, para o trabalho análogo à escravidão: por que nós temos visto tamanho número de ações e de apreensões e de operações de pessoas sendo vítimas da exploração laboral? Será que nós não deveríamos ter essa tipificação na questão penal e não apenas na esfera trabalhista para que esse crime de fato seja penoso, seja um crime caro, seja um crime que incomode quem o pratique? A gente também observa que a maioria das vítimas da exploração laboral, do trabalho análogo à escravidão são homens. A maioria das vítimas para exploração sexual para destinos são mulheres, para fora do Brasil, então a gente vê uma rota muito grande para a Itália, Espanha, Portugal e a gente tem também uma rota infelizmente muito triste, inclusive, um estudo feito pela Freedom Fund no hotspot de Recife mostrou que mais de vinte mil crianças na região metropolitana de Recife sofrem exploração sexual! A gente tem, sim, que estruturar o nosso país de forma que a gente tenha mais campanhas de alerta sobre o que é o crime, mais denúncias e penas que realmente sejam pesadas para quem comete esse crime!

ANFITRIÃO:

Uma das dimensões mais sensíveis desse trabalho é justamente o cuidado com as pessoas resgatadas das redes criminosas. Após uma operação de resgate, quais são os principais desafios relacionados à proteção, acolhimento e reintegração das vítimas? Que tipo de apoio psicológico, social e institucional é necessário para que essas pessoas possam reconstruir suas vidas?

CONVIDADA:

Um dos trabalhos mais difíceis é resgatar uma vítima ou acolher uma vítima que sofreu esse crime! Acho que um dos casos que mais foram falados no Brasil recentemente foram dos dois jovens que a gente teve a oportunidade de ajudar a trazer de volta de Mianmar, que foi o Lucas e o Felipe. Então, quando você recebe uma pessoa que sofreu tortura e que foi objetificada por meses, a gente precisa oferecer para ela tratamento psicológico. A gente precisa oferecer para ela esse cuidado intenso pós-traumático que exige profissional bem treinado e bem formado. A gente precisaria ter uma sociedade, um Estado, mais presente no sentido de suprir a questão financeira de trabalho, de recolocação de mercado. Hoje, no Brasil, eu acho que essa parte ainda não existe. Se a polícia do estado de São Paulo, por exemplo, tiver um caso de tráfico de pessoas e ela precisar resgatar essa vítima e colocar num local, qual seria esse local que essa polícia levaria essa vítima? Para uma casa de abrigo? Uma casa de abrigo especializada para vítimas de tráfico de pessoas ou é uma casa de abrigo para moradores de rua? O Brasil ele é muito campeão em ter todos os protocolos, todas as formatações em papel, mas, na prática, se você tiver um caso - e ouvi isso de várias agências policiais - na sexta-feira, às vinte horas, você não tem para quem ligar! A gente precisa ter um Estado que seja presente! Que tenha na prática aquilo que diz que está no papel. Nós, como sociedade civil, temos tentado novamente suprir essas lacunas deixadas pelo Estado, que é o cuidado emocional, que é o cuidado de recolocação de mercado de trabalho, que é a formação, muitas vezes, a escolar, mas, esse não é um trabalho de sociedade civil, esse deveria ser um trabalho de Estado!

ANFITRIÃO:

Diretora Cintia, sabemos que o combate ao tráfico de pessoas não depende apenas de repressão criminal, mas também de conscientização e prevenção. Na sua visão, qual é o papel da sociedade nesse processo? O que cidadãos, instituições e governos podem fazer para identificar sinais de tráfico humano e contribuir para a prevenção desse crime?

CONVIDADA:

Essa é uma pergunta que eu sempre penso, porque é o que motiva o nosso trabalho. Quando eu fui chamada para trabalhar, eu não queria ser mais uma organização que ficasse enxugando gelo e, talvez, seja a minha utopia, que eu insisto em perseguir! Dizem que - e eu sinto isso - quanto mais perto eu estou da utopia, mais ela corre de mim! Mas a solução é a educação! Eu acho que sociedade civil, Estado, forças de segurança, iniciativas privadas, a gente tem uma obrigação que é a educação. O Estado tem obrigação de prover educação e o Estado falha! A instituição privada que está fazendo essa educação tem que ter nas escolas os alertas, o que é o tráfico de pessoas, o que é o tráfico de drogas, o que é o crime cibernético que hoje assola as crianças e os adolescentes! É educação! Nós temos focado em campanhas de prevenção, porque se eu educar as pessoas, se eu educar a sociedade a saber o que é o crime e a informar a sociedade os canais de denúncia - eu volto aqui para dizer - quem não sabe quais são os canais de denúncia, o Brasil dispõe de alguns canais: o Disque 100, o Disque 180 e o site online da Polícia Federal - Comunica PF - escolha “Tráfico de Pessoas”. Então, com a educação, com a informação, a sociedade vai fazer denúncia. A sociedade denunciando esse crime vai ser autora e provocadora do Estado para que as políticas públicas sejam eficientes. E aqui fica um desafio nosso como cidadão e cidadã desse país tão lindo, que é educar, é informar, é ser agente de transformação na vida das pessoas! Como sociedade, o meu papel tem sido educar. Como cidadã, o meu papel tem sido olhar - eu vi alguma coisa, eu desconfiei de alguma coisa - eu preciso denunciar. É assim que eu enxergo! Talvez a utopia continue correndo, mas eu não vou desistir de correr atrás dessa utopia!

ANFITRIÃO:

Caríssima, estamos chegando à parte final desta conversa que certamente trouxe aos nossos ouvintes uma compreensão mais profunda sobre a gravidade do tráfico de pessoas e sobre o trabalho fundamental desenvolvido por organizações como a “The Exodus Road” no enfrentamento dessa forma extrema de violação dos direitos humanos. Reprisando os meus agradecimentos e parabenizando-a pelo incansável trabalho, deixo este espaço para suas considerações finais. Fraterno abraço!

CONVIDADA:

Eu quero te agradecer por essa oportunidade de falar sobre esse crime que mexe tanto comigo! E eu quero trazer um pedido de alerta, porque esse crime está muito mais próximo do que a gente pensa! Esse é um crime que atinge a toda a sociedade. A gente tem visto hoje o Brasil sendo assolado por plataformas ilegais de jogos online! São nessas plataformas online ilegais que estão muitos brasileiros sendo obrigados à prática de golpes ou a ofertar os jogos do “tigrinho”. São em plataformas de cripto que oferecem rentabilidades absurdas, onde tem muitas vezes pessoas, lá atrás, sendo obrigadas a ofertar essas plataformas. São nas funcionárias invisíveis de muitas casas que trabalham quatorze horas e que a gente acha que é tão normal, porque estão ali, afinal de contas, são parte da nossa família! São nas escolas, onde os jovens pouco têm acesso às universidades e que vão buscar o sonho para esses empregos, para essas propostas. O meu alerta e o meu pedido que olhem para as pessoas! Entendam que esse é um crime que mexe com o sonho! É um crime difícil de olhar! É um crime difícil de notar, mas, quando a gente começa a enxergar esse crime, a gente não consegue mais desver! Eu quero agradecer a vocês que me escutaram até aqui e a convidá-los a se debruçar sobre esse crime que assola o mundo inteiro. Muito obrigada!

ANFITRIÃO:

Honoráveis Ouvintes! Este foi mais um episódio do Hextramuros! Sou Washington Clark dos Santos, seu anfitrião! Acesse o nosso website e saiba mais sobre este conteúdo! Inscreva-se e compartilhe o nosso propósito! Será um prazer ter a sua colaboração! Pela sua audiência, muito obrigado e até a próxima!

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About the Podcast

Hextramuros Podcast
Vozes conectando propósitos, valores e soluções.
Ambiente para narrativas, diálogos e entrevistas com operadores, pensadores e gestores de instituições de segurança pública, no intuito de estabelecer e/ou ampliar a conexão com os fornecedores de soluções, produtos e serviços direcionados à área.
Trata-se, também, de espaço em que este subscritor, lastreado na vivência profissional e experiência amealhada nas jornadas no serviço público, busca conduzir (re)encontros, promover ideias e construir cenários para a aproximação entre a academia, a indústria e as forças de segurança.

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Washington Clark Santos

Produtor e Anfitrião.
Foi servidor público do estado de Minas Gerais entre 1984 e 1988, atuando como Soldado da Polícia Militar e Detetive da Polícia Civil.
Como Agente de Polícia Federal, foi lotado no Mato Grosso e em Minas Gerais, entre 1988 e 2005, ano em que tomou posse como Delegado de Polícia Federal, cargo no qual foi lotado em Mato Grosso - DELINST -, Distrito Federal - SEEC/ANP -, e MG.
Cedido ao Ministério da Justiça, foi Diretor da Penitenciária Federal de Campo Grande/MS, de 2009 a 2011, Coordenador Geral de Inteligência Penitenciária, do Sistema Penitenciário Federal, de 2011 a 2013.
Atuou como Coordenador Geral de Tecnologia da Informação da PF, entre 2013 e 2015, ano em que retornou para a Superintendência Regional em Minas Gerais, se aposentando em fevereiro de 2016. No mesmo ano, iniciou jornada na Subsecretaria de Segurança Prisional, na SEAP/MG, onde permaneceu até janeiro de 2019, ano em que assumiu a Diretoria de Inteligência Penitenciária do DEPEN/MJSP. De novembro de 2020 a setembro de 2022, cumpriu missão na Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, no Ministério da Economia e, posteriormente, no Ministério do Trabalho e Previdência.
A partir de janeiro de 2023, atua na iniciativa privada, como consultor e assessor empresarial, nos segmentos de Inteligência, Segurança Pública e Tecnologia.